Afonso Tavares, Érica Barroso, Carolina Martins & Carolina Pedro Martins
PARALISIA ABUSIVA / ABUSIVE PARALYSIS, 2026

Versão em vídeo da instalação interativa com videoprojeção, sensor de profundidade (Kinect) e motor gráfico em tempo real / Video version of the interactive installation featuring video projection, a depth sensor (Kinect) and a real-time graphics engine.

De acordo com a Associação Portuguesa de Apoio à Vitima (APAV), em 2024 foram feitos 105.747 atendimentos no total, em que 16.630 pessoas foram apoiadas e 31.242 casos classificados como crimes e outros tipos de violência. De acordo com as estatísticas da PORDATA, encontram-se em Portugal cerca de 11 milhões de cidadãos, dos quais 5,609 milhões são do sexo feminino, correspondendo a cerca de 51% da população. Graças ao carácter conservador e, por vezes, estagnado de alguns contextos da sociedade portuguesa, muitas pessoas não se apercebem da gravidade da violência doméstica, banalizando-a e tratando-a como algo “comum”, sobretudo em meios mais rurais. Nesse contexto, muitas mulheres que sofrem este tipo de abusos podem, por um lado, interiorizar essas dinâmicas como normais, em função da sua socialização e do papel que lhes é atribuído, ou, por outro, não dispor de informação ou de meios para denunciar a situação, isto já sem considerar a pressão emocional e social a que podem estar sujeitas.

Com a nossa obra Paralisia Abusiva, pretendemos retratar o estado mental de uma vítima de violência doméstica, recorrendo à videoinstalação interativa como meio. À medida que o espectador interage com o espaço, o grito, enquanto sinal extremo de angústia, vai-se acumulando de forma subtil. Deste modo, procuramos levar o espectador a refletir sobre a banalização da violência, uma vez que os gritos, enquanto representação da violência doméstica, se integram quase impercetivelmente no ambiente sonoro criado, entendido como reflexo da sociedade anteriormente referida. Para a criação deste trabalho, recorremos a várias artistas pioneiras da videoarte e da música experimental como referências, nomeadamente: Canciones napolitanas (1971), de Narcisa Hirsch (Argentina, 1928–2024); Self-Portrait (1970–71), de Shigeko Kubota (Japão, 1937–2015); AAA-AAA (1978), de Marina Abramović (Sérvia, 1946– ); e Yoko Ono and John Zorn: Improvisation, Live in The Greene Space (2013), de Yoko Ono (Japão, 1933– ).

According to the Portuguese Association for Victim Support (APAV), in 2024 a total of 105,747 cases were handled through its various communication channels, of which 16,630 received support and 31,242 were classified as crimes or other forms of violence.

According to PORDATA statistics, there are around 11 million citizens in Portugal, of whom 5.609 million are female, corresponding to around 51% of the population. Due to the conservative and, at times, stagnant nature of certain aspects of Portuguese society, many people fail to recognise the seriousness of domestic violence, trivialising it and treating it as something “common”, particularly in more rural areas In this context, many women who suffer this type of abuse may either internalise these dynamics as normal, due to their socialisation and the role assigned to them, or lack the information or means to report the situation, not to mention the emotional and social pressure to which they may be subjected.

With our work Abusive Paralysis, we aim to portray the mental state of a victim of domestic violence using an interactive video installation as our medium. As the viewer interacts with the space, the scream, as an extreme sign of anguish, builds up subtly. In this way, we seek to encourage reflection on the trivialisation of violence, since the screams blend almost imperceptibly into the created soundscape, understood as a reflection of the society mentioned earlier. In creating this work, we drew inspiration from several pioneering artists in the fields of video art and experimental music, notably: Canciones napolitanas (1971) by Narcisa Hirsch (Argentina, 1928–2024); Self-Portrait (1970–71) by Shigeko Kubota (Japan, 1937–2015); AAA-AAA (1978) by Marina Abramović (Sérvia, 1946– ); and Yoko Ono and John Zorn: Improvisation, Live in The Greene Space (2013) by Yoko Ono (Japão, 1933– ).